Confesso que sempre tive certa aversão a fórmulas prontas ou a metodologias ditas infalíveis, especialmente quando o assunto é inovação ou intra-empreendedorismo.

Repare que a grande maioria desses conceitos foram produzidos por quem pouco ou nunca intra-empreendeu na prática. Estudar cases oferece um bom ponto de partida, mas pergunto: como vou responder a novos desafios com fórmulas baseadas em soluções ou cases passados?

O mundo mudou muito, e o contexto dos negócios também. Mas o apego ao que funcionou no passado guias, fórmulas ou metodologias segue quase intacto e se explica pelos sintomas de aversão ao risco que demonstramos ao adotar algum crachá corporativo.

Na dúvida, repare na facilidade que você tem para opinar sobre outras marcas ou empresas, mas como seu comportamento fica bem diferente logo que cruza as catracas da empresa onde trabalha. E entendo que seja assim.

Aquele ou aquela que indica um caminho diferente ou assume abertamente o risco de falar, fazer e falhar, muitas vezes é julgado ou considerado uma “kryptonita corporativa” (fãs do Super-Homem entenderão). Buscando sobrevivência e proteção, acabamos adotando um comportamento mais seguro, de manada e averso aos riscos.

E a Inovação?

Já falamos nesta coluna sobre a relação (negativa) desse comportamento com a capacidade de inovar. É um grande limitador.

Recentemente, me perguntaram como eu definiria “inovação”. Para mim, se trata da combinação da coragem para fazer o que precisa ser feito com a tolerância ao desconforto que suas ações vão gerar nas pessoas e na organização.

Simples e complexo assim, sem fórmulas ou guias, mas com muita, mas muita atitude e liderança pelo fazer (e não pelo falar). Chegamos a um ponto em que não assumir algum risco pode se converter no maior risco para um negócio. E é por isso que inovar a liderança é preciso, já diria o Mestre Yoda.

E o que significa inovar a liderança?

Sem tentar criar mais uma fórmula, acredito que uma liderança intraempreendedora deve se esforçar para desenvolver quatro soft skills:

1 - Desapego

É preciso ter a capacidade de desapegar das fórmulas prontas e de planos que levaram a empresa até o presente, permitindo que se manifeste uma curiosidade incansável com foco no aprendizado constante.

Lembre-se: o que nos trouxe até aqui não necessariamente nos levará até o próximo passo, especialmente em um contexto de negócios diferente.

2 - Colaboração

Entender que sozinho poderia ir mais rápido, mas que juntos sempre iremos mais longe. Minha grande parceira de inovação Tatiana Lemos sempre diz que “a força da corrente será medida pelo seu elo mais fraco”. Ou seja, de que adianta o intraempreendedor estar 25 passos à frente de todos, se os demais não o acompanham?

É preciso adaptar a sua velocidade e ambição de inovação à das pessoas ou você irá colecionar anticorpos e sabotadores ao longo do caminho.

Uma grande saída para provocar a colaboração e o aprendizado coletivo, na prática, é adotar as metodologias ágeis, que quando aplicadas corretamente, derrubam as barreiras da hierarquia e ativam a cooperação por habilidades complementares.

Outra é aplicar a metodologia do 70/20/10, onde 70% dos recursos (humanos e capital) são dedicados a manter a operação e dar sequência ao que sempre funcionou (a famosa “vaca leiteira”). Outros 10% são dedicados a testar novas hipóteses e tudo bem falhar, afinal aqui os recursos são dedicados a testar e aprender. Por fim, os 20% restantes são dedicados ao que funcionou nos testes efetuados com os 10%.

Essa é uma maneira criativa de criar um ciclo virtuoso, mantendo a empresa em um fluxo contínuo de excelência operacional, mas aberta à inovação.

3 - Aceitação de falhas

Inovar requer coragem e a capacidade de conviver com o desconforto de seguir caminho ainda desconhecido. Acompanhar o trajeto previsto em um mapa é muito mais confortável do que se guiar apenas por uma bússola. Você certamente chegará no destino ao optar pelos caminhos já conhecidos, mas quais descobertas deixou de encontrar ao fazer uma opção diferente?

Descobrir algo novo implica em tentar algo diferente. Logo, falhar faz parte da jornada.

Durante 25 anos, trabalhei em empresas cujas lideranças encaravam a falha como um erro ou algo a ser evitado e combatido. Paradoxalmente, escutava esses mesmos líderes, em cafés e conversas informais, a reclamação da falta de liberdade para arriscar.

É preciso desenvolver a tolerância e aceitação à falha. Inclusive, eu adoraria ver um indicador de performance para uma equipe de inovação que medisse a quantidade de tentativas frustradas e seus aprendizados.

4 - Vulnerabilidade

Competência vital para a liderança, a vulnerabilidade ainda é confundida com fragilidade ou fraqueza, quando significa ter a capacidade de olhar para si mesmo e a coragem de se mostrar sem filtros, admitindo suas falhas, fraquezas ou dúvidas.

Um case que costumo citar como exemplo de vulnerabilidade é o de um CEO de uma grande multinacional de tecnologia no Brasil. Em uma reunião mensal com seus diretores, ele perguntou quem havia falhado no mês anterior.

Imagine se você estivesse naquela sala. Silêncio sepulcral. Olhares assustados trocados na expectativa de uma bronca épica.

Reparando no desconforto gerado, o CEO declara uma falha pessoal na condução de um projeto e na sequência comenta: “Nossa falta de falhas indica que não tentamos fazer nada diferente nesse último mês e isso me preocupa. Nosso negócio pode estar em risco”. Na sequência, ainda arrematou: “declarei minha falha para criar um ambiente de confiança e conforto dentro dessa equipe e espero ouvir suas falhas de agora em diante.”

Recentemente, apliquei esse exercício em uma grande indústria nacional e o reflexo da declaração de uma falha do CEO mudou completamente o espírito da equipe. Todos, sem exceção, sentiram-se mais empoderados, acolhidos e seguros para poderem declarar suas falhas e medos ao grupo.

E você: inovou na sua liderança?

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